Passeata em Mogi das Cruzes

chargeO povo brasileiro tem muitas histórias de revoluções e manifestações espetaculares. Nossos livros são recheados de capítulos sobre a noite das garrafadas, revoltas da cabanagem, sabinada, da vacina e inúmeras outras insurgências mais ou menos violentas, de norte a sul do país, desde os tempos de colônia até hoje.

Mesmo assim, criou-se um mito de que o brasileiro aguenta indefinidamente a sangria dos impostos cobrados, se submete aos péssimos serviços públicos e assiste inerte às inúmeras maracutaias e incompetências de seus políticos. E que não há uma força popular capaz de reverter o caos ético e administrativo em que o Brasil se meteu. A charge ao lado, copiada de um jornal europeu, ilustra bem essa impressão de que nossa indignação se dissipa facilmente com um jogo de futebol.

A gota que transbordou o lago foi o aumento de R$0,20 nas passagens de ônibus. Liderados por um grupo apartidário chamado Movimento Passe Livre, milhares de manifestantes foram às ruas protestar pela revogação do aumento e pela melhoria da qualidade dos serviços de transporte. A polícia, mal treinada e pessimamente chefiada, reprimiu com violência desmedida.

No dia seguinte, em vez de milhares, eram milhões. A nação inteira se mobilizou e o protesto deixou de ter um único grito. Estudiosos afirmam que o “Swarming” brasileiro foi o maior já registrado na história da civilização. A pauta é diversa, apesar de alguns infelizes terem dito não entender o porque de tanta revolta. Enfim, a sociedade brasileira arrumou meios de se organizar sem a participação dos partidos políticos e gerar uma manifestação pública capaz de impressionar. A chamada “Revolta do Vinagre” (várias pessoas foram detidas por estarem portando garrafas de vinagre, que alivia o desconforto causado pelas bombas de gás lacrimogêneo lançadas indiscriminadamente pela polícia) ganhou manchete em jornais de todo o planeta.

Como brasileiro, fiz a minha parte registrando os protestos na cidade onde vivo. Acompanhei os milhares de manifestantes desde o início, no centro de Mogi das Cruzes, até a prefeitura. Lá presenciei o encontro com a multidão que já nos esperava na praça. Foi emocionante e fez aumentar, em mim e em todos que estavam lá, a sensação de que podemos virar o jogo quando quisermos.